Biomimética é aplicável em todos os segmentos, afirma referência internacional no assunto

Biomimética é aplicável em todos os segmentos, afirma referência internacional no assunto

Uma ciência “aplicada e aplicável em qualquer área e em qualquer setor”. O exercício de “olhar para o mundo natural, e para o nosso próprio mundo, com novas perspectivas, através de novos ângulos. Ver tanto os problemas, quanto os processos para a resolução de problemas”. É assim que a Biomimética — eleita pela Forbes Magazine uma das cinco maiores tendências em inovação —  é definida pela co-Fundadora do Biomimicry Brasil e fundadora do bio-inspirations, Alessandra Araújo.

Em entrevista à V2COM, a designer de inovação e bióloga referência internacional no assunto constrói um panorama detalhado da Biomimética no Brasil: a progressão para os próximos anos, os desafios para expansão e sua aplicabilidade quando o assunto é inovação.

Esse conteúdo faz parte de nossa série sobre Biomimética, produzida desde janeiro, quando o CEO da V2COM, Guilherme Spina, participou de um Workshop de Imersão do Biomimicry Institute, na Costa Rica.


Como você avalia a progressão da Biomimética no Brasil para os próximos anos?

Eu acredito que a Biomimética está crescendo muito no Brasil. Eu vejo meu próprio trabalho como um termômetro. Abri a empresa (Bio-Inspirations) focada apenas em Biomimética há dois anos e meio — apesar de que já trabalho na área há quase uma década — e a demanda por cursos e por eventos está cada vez maior. Tenho feito trabalhos com bastante profundidade em quase todos os setores. Este ano, por exemplo, fiz um inédito com uma corporação de seguros canadense em que atuei com a prototipagem (Biomimicry Thinking) em todas as áreas de negócios da empresa. Muito desse trabalho foi focado em engajamento de equipe, sucessão profissional, melhoria de comunicação, entendimento de valor da cadeia de negócios… São temas que usualmente não estamos acostumados a pensar com Biomimética, mas que foram muito bem trabalhados, com bastante profundidade, e que trouxeram diversos insights para o planejamento da empresa do próximo ano.

Na área de inovação, tenho recebido demandas do SEBRAE, vinculado ao Ministério do Trabalho, que recentemente me contratou para fazer rodadas ao redor do Brasil. A demanda tem sido muito grande, não apenas no aspecto interrelacional dentro das empresas, mas também para fomentar novos negócios, e uma nova forma de inovar.

Outro importante uso da Biomimética acontece na ideação, junto aos Design Thinkers, onde ela funciona como uma fonte de luz. Às vezes, dentro do processo de Design Thinking — depois de analisada em profundidade qual é a percepção do desafio dentro de relações empáticas com os stakeholders — pode ocorrer uma sutil (falando com bastante respeito) “travada” diante de qual poderia ser a ideia para resolver aquele determinado assunto. E a Biomimética entra justamente como uma forma muito elucidativa para trazer essa etapa de ideação. Como resolver um problema que já foi profundamente trabalhado e entendido com o mercado.

A Biomimética já está amplamente difundida entre as empresas, ONGs, universidades e governo brasileiros?

Sim, eu vejo muitas companhias brasileiras — ou estrangeiras que estejam no Brasil — cada vez mais compreendendo o valor da Biomimética. Ainda há um espaço muito grande a percorrer, um potencial enorme… Estamos bem no início de entender o valor, mas ele já começa a ser percebido.

Com relação às universidades, vejo algumas aplicando a Biomimética dentro de suas cadeiras de ensino. Eu mesma já realizei vários trabalhos em universidades do estado de São Paulo. Sou frequentemente convidada para dar palestras e, com relação à formação em si, já atuei em duas instituições de ensino. Há também muita interconexão entre eventos — que promovo e participo — e essas instituições. As faculdades onde não há a Biomimética dentro da cadeira curricular, já tem (a Biomimética) como uma disciplina que, embora não regular, traz o conhecimento para a área de inovação.

Dentro do Governo, eu acho que ainda é incipiente. Tem uma iniciativa recém-lançada por parte do Ministério da Ciência e Tecnologia, que faz uma correlação com o design criado pela Natureza. É uma etapa anterior à profundidade da própria Biomimética, mas acho que o governo está começando a entender a profundidade disso.

Se você pudesse dar uma “dica” a uma empresa que está prestes a iniciar sua trajetória na Biomimética, qual seria?

É preciso ter uma conversa bastante profunda sobre o que a empresa precisa, o que ela quer fazer, tanto no sentido na inovação, quanto na melhoria de seu processo interno, seja com melhores relações entre as pessoas, propostas mais colaborativas… Aliás, a colaboração está muito vinculada à criação. Como a Biomimética trata de vida — e cria uma ponte entre a genialidade que podemos observar na Natureza e a demanda de processos criados pelo homem —, é importante ter bastante clareza sobre o espaço ocupado por nós (humanos) e a necessidade de inovar. É dessa reflexão que será construída uma ponte muito mais sólida entre a ciência e a Natureza.

Quais os maiores desafios que as empresas enfrentam quando tentam colocar a Biomimética em prática? 

O grande desafio é mudar o status quo, a maneira como as coisas são feitasNão só o próprio processo de Design Thinking traz uma ruptura para a conhecida sequência linear de pensamento — “temos um problema, e já temos uma solução” —, mas também a Biomimética. Ela, aliás, traz uma disrupção a mais: além de quebrar essa linearidade, também coloca um novo componente, que é olhar como a Natureza faz o que eu gostaria de resolver.

E, para isso, é preciso fazer uma nova pergunta. Entender o que de fato é o meu desafio para, então, olhar a Natureza, e ver como ela responde. Esse processo nem sempre é automático, nem sempre é simples, e, muitas vezes, precisa de uma facilitação. Então, o desafio para as empresas é trazer essas novas “lentes”; esse olhar para o mundo natural e para o nosso próprio mundo com novas perspectivas, através de novos ângulos… Ver tanto os problemas, quanto os processos para a resolução de problemas.

ROI (Retorno sobre Inspiração): como você define essa métrica?

Acho o ROI fantástico! Eu definiria essa métrica como infinita. Nós somos a própria Natureza, e o caminho da Biomimética é, através de um olhar para fora, entender nosso grande valor também olhando para dentro. Nós, seres humanos, temos quase 3.8 bilhões de anos de evolução acumulados em nossa constituição bioquímica, física, energética… Trabalhar com essa ponte de conhecimento do universo natural também amplia o nosso próprio conhecimento.

Tomo uma licença, quase poética, de dar muito mais corpo a algo tão importante, que é a intuição. Essa voz de conhecimento que nos diz qual o melhor cenário, a melhor resposta, a melhor forma de pensar em alguma solução. A Natureza opera o tempo todo com um alinhamento muito fino do que está acontecendo em seu contexto e o que precisa ser feito. Nós (humanos), ao contrário, estamos um pouco menos despertos para perceber a demanda que está sendo apresentada.

Assim, eu acredito que, a partir do momento em que criamos essa conexão com o universo natural, aumentamos a potencialidade dessa conexão interna. E, com isso, aumentamos a criatividade, que é inerente a nós. Somos todos extremamente criativos, somos todos designers… Às vezes, precisamos apenas de uma nova porta, ou de uma nova possibilidade para isso ser muito mais aflorado no cotidiano.

Como uma empresa pode aplicar o ROI de uma maneira prática?

Essa resposta tem um componente muito interessante que é sair do automatismo. Sair deste lugar de que “como sempre fizemos, e deu certo, continuaremos a fazer”. Sabemos que tudo que acontece no planeta Terra opera por impermanência: nenhum dia é igual ao outro, os negócios mudam o tempo todo, as pessoas mudam de hábitos, as possibilidades mudam. Esse universo digital, que cada vez se apresenta com mais sofisticação, tem mudado — e vai mudar ainda mais — nossos hábitos de relacionamento, de consumo… Então, eu acredito que é fundamental sair do automático, de um lugar quase que conservador, e entendermos que, a cada dia, criamos e vivemos novas realidades.

Isso, sim, tem muito a ver com a necessidade de responder as demandas atuais de uma forma criativa, alinhada e humana. Humana no sentido de que podemos fazer sempre mais e melhor não só para nós, mas para todos os outros seres. Às vezes, tenho conversas profundas e belas sobre o Human-Centered Design (HCD), mas é importante saber de que “Human” estamos falando. Qual a qualidade desse humano? É um ser humano que tem completo entendimento de que todos os seres vivos têm muito valor? Eu acredito que é apenas a partir dessa expansão de consciência que realmente tudo o que for feito dentro dessa concepção de Human-Centered Design faz muito sentido.

Como você vê a relação entre a Internet das Coisas e a Biomimética?

Tudo o que acontece no universo tecnológico e digital tem muita manifestação no mundo natural. Os mapas de fluxo de Internet são muito parecidos com os mapas de sinapses nervosas, que também são muito semelhantes às redes de microrrizas (das raízes das árvores). A complexidade das redes virtuais ou de Inteligência Artificial é muito semelhante à complexidade dos sistemas vivos. Hoje, o que essas inteligências estão emergindo e manifestando são e nascem da Natureza. O homem começa a colocar em softwares, em processos e projetos essa inteligência, essa complexidade que vem, sim, de sistemas vivos. Há uma conexão absolutamente íntima, espelhada. Eu não vejo distância entre esses dois universos.

Existe algum exemplo de um Sistema Biológico de IoT?

Há várias inovações que já tiveram algoritmos e soluções que vieram de elementos naturais. Por exemplo, o algoritmo do Waggle Dance das abelhas — o processo de decisão para a mudança de colmeia — já resolveu muitos problemas de fluxo de Internet. Algoritmos de crescimento de alguns fungos já ajudaram bastante o entendimento de softwares de distribuição logística, pensando em rotas mais eficientes. Então, eu vejo que há uma intimidade muito grande entre essas traduções, essas matemáticas sagradas que acontecem no universo natural com soluções do mundo digital.

A Biomimética pode ser aplicada a qualquer segmento de negócios, ou há algum tipo de restrição?

Essa pergunta é belíssima! Eu acho que não existe nenhuma restrição porque, fundamentalmente, o Biomimicry Thinking, ou a Biomimética, é um modelo de criação, uma forma de pensamento. E, em razão disso, ela é aplicada e aplicável em qualquer área e em qualquer setor. Eu acredito, inclusive, que ela permite até mesmo a expansão dos próprios negócios, pois toda vez que trabalhamos com cenários análogos, criamos momentos paralelos.

Toda vez que limitamos nossa área do conhecimento, colocando tudo numa caixa — como em processos de educação e de transmissão de informação, sempre tratados dentro de seus universos respectivos (Engenharia só fala com Engenharia; Biologia com Biologia) —, deixamos de ter uma ampliação de visões e de conhecimentos que podem ser complementares. Quando trabalhamos e damos profundidade a qualquer complementariedade, trabalhamos intrinsecamente com a colaboração.

Se repararmos no boom de espécies do planeta Terra, muito se deu por processos colaborativos. Nosso próprio corpo é a resposta evolutiva disso. Basta ver que dentro de nós existem muito mais células de bactérias do que células humanas. Assim, eu vejo que o trabalho transdisciplinar, quando falamos em inovação, é a única forma de darmos conta das mudanças que vêm por aí, sejam por fenômenos naturais, mudanças mercadológicas, econômicas… E isso tudo é inevitável: não paramos o universo; existe sempre um fluxo constante de renovações e impermanências.

Fonte: V2COM

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Solange Luz

Ela é a construção de todos que conheceu e de tudo que viveu, especialista em sonhar acordada e falar consigo mesma. No Voicers é a CCC (Content, Creator & Curator), carinhosamente conhecida como Queen of Words.
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