Realidade Virtual e Morte: Quais os Limites Éticos da Tecnologia?

Realidade Virtual e Morte: Quais os Limites Éticos da Tecnologia?

A realidade virtual (RV) é uma das principais tecnologias em desenvolvimento. Além da indústria de entretenimento, a solução vem aparecendo como aposta para treinamentos de colaboradores e militares, capacitação de médicos, simulações para engenheiros e arquitetos, entre diversas outras potenciais aplicações.

Apesar de todos os benefícios que a RV pode proporcionar, um novo uso da tecnologia está gerando controvérsias e discussões éticas. Na última semana, um vídeo do “reencontro” entre uma mãe e a sua filha morta viralizou nas redes sociais.

Realidade virtual “ressuscita” os mortos

Em 2016, Nayeon, filha de sete anos de Jang Ji-sung, morreu de uma doença incurável. Três anos depois, a mãe teve a oportunidade de rever a menina em um mundo virtual. As imagens foram registradas para a televisão sul-coreana.

Na última quinta-feira (6), a Munhwa Broadcasting Corporation compartilhou um clipe do documentário no seu canal no YouTube, mostrando cenas divididas entre o mundo real e o virtual. No vídeo, Jang Ji-sung utiliza um headset de RV e luvas hápticas, podendo interagir com a “filha” em um parque que imita um local em que as duas estiveram enquanto Nayeon estava viva.

Como pode ser imaginado, o encontro despertou emoções fortes. Jang Ji-sung começou a chorar logo que se deparou com a versão virtual de Neyeon, enquanto o restante da família – pai e irmãos da menina – acompanhou de fora todo o desenrolar da simulação. 

Desenvolvimento da tecnologia

A equipe responsável pela produção trabalhou por oito meses no projeto. Além de construírem todo o cenário do parque, os desenvolvedores utilizaram ferramentas de captura de movimento para registrar os comportamentos físicos de um ator infantil, o que serviu de modelo para a criação da Nayeon virtual.

Embora o resultado final não seja perfeito, o que merece atenção especial é que o mundo chegou a um ponto da evolução tecnológica em que já é possível recriar pessoas mortas em realidade virtual. As implicações do sistema, no entanto, não podem ser previstas.

De acordo com a imprensa internacional, Jang Ji-sung teve reações positivas com a vivência. “Talvez seja um verdadeiro paraíso”, disse a mãe, segundo as fontes. “Eu encontrei Nayeon, que me recebeu com um sorriso, por um tempo muito curto, mas muito feliz. Acho que realizei o sonho que sempre desejei.”

Apesar de as declarações da mãe terem demonstrado satisfação com o uso da tecnologia, especialistas em saúde mental estão questionando o impacto que esse tipo de aplicação pode ter no processo de luto. Será que encontrar com um ente querido virtualmente ajudará as pessoas a seguirem em frente após a perda? Será que a tecnologia deixará os usuários mais apegados ao mundo virtual, onde podem “encontrar” os mortos?

Um mundo de pessoas digitais

Diversas startups já estão trabalhando na criação de “avatares digitais” de pessoas vivas e mortas. Outras já estão construindo, inclusive, robôs de pessoas reais.

Enquanto parte dos especialistas em tecnologia considera o encontro virtual com os mortos um vestígio reconfortante, especialistas em saúde mental afirmam que é necessário olhar para essas aplicações com mais cuidado. 

Mônica Giacomini, psicóloga clínica com mais de 25 anos de experiência, explica que a elaboração do luto acontece a partir do momento em que o indivíduo consegue entrar em contato e vivenciar a morte do ente querido. Com a realidade virtual proporcionando esses encontros, a ressignificação da perda pode ficar comprometida.

Para a especialista, recriar situações de forma tão imersiva faz com que a pessoa retorne o tempo inteiro para uma realidade que não é a vivência da perda, o que provavelmente gerará uma queda emocional. Ao sair do ambiente virtual, a pessoa passa novamente por uma vivência similar a de quando o enlutamento aconteceu. 

“Não dá para encontrar o ente falecido na realidade virtual, sair de lá e não se deparar com a vivência da perda, porque as duas coisas estão interligadas”, explicou Giacomini. “Do ponto de vista emocional, considero um risco muito grande, porque você não tem o controle sobre como essas pessoas ficarão depois. Pode gerar uma catarse emocional séria e com consequências importantes que podem prejudicar a elaboração desse luto.”

Possíveis consequências

É preciso destacar, no entanto, que não existe tempo ou forma de elaboração do luto, já que o processo é particular para cada indivíduo. Segundo Barbara de Sales, psicóloga clínica especialista no assunto, cada pessoa tem uma maneira singular de lidar com o próprio processo de perda, já que a elaboração depende de diversos fatores, incluindo a proximidade com o ente falecido e a causa da morte.

Independentemente dos aspectos individuais de cada processo de luto, as especialistas concordam que há um ponto em comum em todos os casos: é necessário entrar em contato com a vivência da perda para, finalmente, lidar com a situação de uma forma menos dolorosa. 

Conforme explicitado por Mônica Giacomini, para mexer em qualquer aspecto emocional é necessário haver suporte posterior. Como até o momento esse tipo de aplicação de realidade virtual não tem um princípio de tratamento, não dá para garantir as consequências para o usuário, afinal, ao sair da realidade virtual e voltar para o mundo real, o indivíduo terá que lidar mais uma vez com a perda e, muitas vezes, sem recursos emocionais para isso. 

Com o desenvolvimento da tecnologia, o alerta é a necessidade de restrição. “Não é qualquer pessoa que deve ser submetida, pois não há garantias sobre a reação do usuário ao sair da realidade virtual e ser colocado novamente no movimento de falta e enlutamento, do qual ele estava tentando dar conta emocionalmente”, acrescentou Giacomini.

De acordo com Barbara de Sales, espera-se que depois de algum tempo o enlutado retorne às atividades cotidianas e passe a lidar com a perda de forma mais integrada à sua vida. “A utilização da realidade virtual deve ser avaliada a cada caso, pois pode servir de maneira muito ambígua na elaboração do luto, sendo mais prejudicial que benéfica”, declarou a especialista. “Você não trabalha na elaboração desse conteúdo, você não trabalha o lidar com a perda do ente querido. Você trabalha com uma fantasia, o que pode impedir a retomada do dia a dia.”

Por conta dos riscos associados, a sugestão é que haja uma regulamentação para o uso da tecnologia, restringindo o acesso apenas aos candidatos que passarem por avaliação psicológica. Para os aprovados, ou seja, pessoas que já conseguiram elaborar o processo de luto, o encontro virtual com o ente querido pode ajudar como uma despedida simbólica, segundo Sales.

De fato, é difícil prever o funcionamento da tecnologia, afinal, a interação com versões virtuais de entes falecidos ainda é um território desconhecido. Com certeza, os próximos anos serão marcados por discussões importantes sobre o assunto, que deve ganhar cada vez mais espaço com o aprimoramento e a popularização dos headsets e de conteúdos ainda mais imersivos. 

Fonte: TransformaçãoDigital.com

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Ligia Zotini Mazurkiewicz

Tem o dom de fazer pontes entre teoria e prática, apaixonada desde muito cedo por tecnologia e como ela irá levar a sociedade para um patamar mais humano, para isso ela hackeia burocracia de sistemas antigos onde quer que esteja. Viajante nas horas vagas gosta de explorar cada canto & encanto deste mundo.
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